Efeitos da pandemia ainda são sentidos por pequenos negócios da economia criativa em Minas Gerais

Levantamento feito pelo Sebrae Minas mostra que, entre abril de 2020 e junho deste ano, houve uma redução de 3% no número de micro e pequenas empresas (MPE) mineiras agrupadas em seis segmentos da economia criativa: cultura, audiovisual, música, entretenimento, games e mercado editorial.  Em sentido oposto, no mesmo período aumentou 17% o número de registros de microempreendedor individual (MEI) nesses mesmos segmentos.

Também chama a atenção o fato de o número geral de formalizações de MEI em Minas Gerais ter crescido 23% nesses 14 meses, enquanto o número total de MPE aumentou 5%. “Esse comparativo mostra que o setor continua enfrentando dificuldades. E mais: o aumento de MEI na economia criativa está muito relacionado à restrição das atividades e ao fechamento de MPE”, explica Felipe Brandão, gerente da Unidade de Inteligência Empresarial do Sebrae Minas.

Segundo ele, a maior formalização de MEI no setor está longe de refletir uma recuperação, considerando, inclusive, as vagas de emprego perdidas com o fechamento das MPE no período. “O segmento de venda de livros, por exemplo, teve um saldo negativo de mais de 4,8 mil vagas em 2020. Até junho deste ano, o saldo de empregos nessa atividade continuava negativo em mais de 100 vagas. No mesmo período houve um aumento de 66 registros de MEI no segmento, portanto, não se pode falar em recuperação”, afirma Brandão.

Entre abril de 2020 e junho de 2021, todos os segmentos da economia criativa registraram aumento na formalização de MEI:  audiovisual (54%), mercado editorial (25%), cultura (13%), música (9%), games (6%) e entretenimento (2%). Considerando o total de abertura e baixa de empresas, 3.815 MEI passaram a atuar nesses segmentos no estado.

As atividades do audiovisual que mais ampliaram o número de MEI no estado foram as de pós-produção cinematográfica, de vídeos e programas de televisão (69%) e serviços de dublagem (67%). Comércio varejista de objetos de arte (37%) e produção teatral (14%) puxaram o crescimento do MEI no segmento cultural. Já edição de livros (34%) e edição de revistas (26%) foram as atividades do MEI que mais cresceram no segmento editorial.

Por outro lado, entre as MPE, os mesmos segmentos registraram redução no número de empresas: games (-9%), audiovisual (-5%), música (-4%), entretenimento (-3%), cultura (-3%) e editorial (-1%). No total, foi registrado um saldo de menos 134 empresas em atividade no conjunto desses segmentos em Minas Gerais, entre abril de 2020 e junho deste ano. Apenas três atividades desses segmentos apresentaram crescimento entre as MPE: serviços de dublagem (25%), comércio varejista de objetos de arte (7%) e edição de livros (6%).

“O crescimento de MEI em detrimento das MPE também tem gerado um impasse ao setor da economia criativa no estado. O teto máximo de faturamento do MEI, de R$ 81 mil/ano, por exemplo, impede a contratação dos profissionais por algumas empresas que apoiam o setor cultural”, destaca Nayara Bernardes, analista da Unidade de Indústria, Comércio e Serviços do Sebrae Minas.

Novas formas de contato

Para manter as atividades durante a pandemia, mais de 60% dos empreendedores da economia criativa buscaram no ambiente digital formas de se reinventar. O uso das redes sociais foi a principal alternativa encontrada por eles para vender seus produtos e serviços, com destaque para o Whatsapp (79%), de acordo com pesquisa do Sebrae.

A pandemia impulsionou o setor a usar mais a tecnologia, a ter novas formas de contato com o público. Isso, querendo ou não, abriu caminhos para as empresas diversificarem seus canais de vendas e a explorarem um novo mercado.

Segundo Nayara Bernardes, a interação on-line com o público veio para ficar, pois a pandemia mostrou que as pessoas também valorizam a comodidade e a possibilidade de usufruir das atividades culturais e artísticas, sem necessariamente ter que sair de casa para isso. “O ser humano, por natureza, precisa se socializar, manter contato físico. Mas, agora, os consumidores têm a opção de fazer uma aula de dança ou assistir ao seu artista preferido on-line, nos momentos em que não conseguir ou não quiser sair de casa. E não vai abrir mão disso”, afirma.

Explorar novos nichos e remodelar os negócios, segundo ela, é a principal lição que a pandemia trouxe aos empreendedores de um modo geral. “Não podemos deixar morrer o que aprendemos até aqui em relação às tecnologias digitais, mesmo quando as atividades presenciais forem 100% retomadas e os públicos retornarem aos eventos. Tem gente vendendo curso, mudando o produto, o modelo de negócio, porque percebeu que existem outras possibilidades. O que devemos aprender com tudo isso é que não é preciso abandonar um modelo em detrimento do outro, e sim agregar”, ensina a especialista.

Persistência

Oito em cada 10 pequenos negócios da economia criativa ainda amargam perdas financeiras por conta dos impactos da pandemia. Em maio, de acordo com estudo realizado pelo Sebrae em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), o setor registrou queda de 68% no faturamento, bem acima da média geral dos outros setores (-43%). O percentual de empresas com dívidas e empréstimos em atraso se mantinha em 39% no período, mesmo patamar de um ano atrás, no auge da pandemia.

De acordo com a 11ª edição da Pesquisa O Impacto da Pandemia nos Pequenos Negócios, que ouviu 7.820 empresários entre 27 de maio e 1º de junho, 69% dos entrevistados relataram ainda ter muita dificuldade em manter seus negócios; apenas 5% acham que o pior já passou; 19% afirmam que os desafios trouxeram mudanças positivas e 7% estão animados com as novas possibilidades.

Cida Santana

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